Revista de Estudos Criminais

Criminologia, psicologia e psicanálise: contributivos à análise das violências contemporâneas

Pedro José Pacheco e Neuza Maria de Fátima Guareschi.

Resumo: A fim de se compreender o saber/fazer psicológico na contemporaneidade, busca-se neste texto uma análise das possibilidades de articulação das ciências psicológicas e psicanalíticas com a área jurídica e, mais especificamente, criminológica. Concomitantemente, problematiza-se, através de uma perspectiva epistemológica que visa a aprofundar a história das idéias e das ciências durante o século XIX, onde se funda a pretensa cientificidade desse saber/fazer. Esta análise transita por um talvez possível campo de intersecção e interlocução da Psicologia com as ciências jurídicas. Porém, considera-se que esta articulação mostra-se extremamente problemática do ponto de vista de concepções de sujeito, já que também através historicamente das demandas jurídicas e criminais é que as ciências psicológicas irão se autodenominar como ciência do próprio sujeito que conhece, do sujeito cognoscente, e tendo por pretensão formular, descobrir e explicar a “verdade interna” sobre a complexidade da alma humana. É sob esse ideal de ordenação positivista e racionalização cartesiana, que ocorreria pretensamente o intercruzamento da Psicologia com a criminologia, buscando explicar, compreender e prever os desvios por meio da criação de métodos quantitativos de aferição do interno humano. Com a ruptura epistemológica proposta pela psicanálise, a concepção de sujeito do desejo, instável, plural, paradoxal e complexo explicita a incompatibilidade de saberes e discursos sobre o homem para dar conta das multiplicidades da manifestação humana, colocando para as ciências criminológicas a impotência de fornecer respostas objetivas, neutras e mensuráveis. Com isso, contemporaneamente, o convívio e a hibridização teórico-epistemológica do Direito e da psicanálise ocasionam um embate entre o sujeito do direito iluminista (o cidadão portador da razão, ser moral, independente, com livre arbítrio, enfim, uma unidade) e o sujeito do inconsciente, que é é descentrado, não-unitário, não tão livre e responsável por si quanto se almeja e se deseja.

Palavras-chave: Criminologia; psicologia; psicanálise.

v.8, n.29, p.51-62