Revista de Estudos Criminais

Gíria: o dogma da linguagem criminal

Nycia Nadine Negrão Nassif.

Resumo: A genealogia da gíria nos leva a pensar que ela pode ser o resultado da fragmentação ética da sociedade, do conflito de valores, de ideais e da necessidade de alguns grupos em criar sua própria linguagem. Na prisão, pessoas de diferentes culturas, diversas regiões, variadas comunidades, passam a conviver e a compartilhar uma determinada forma de viver, caracterizando um sistema social específico, que com suas peculiaridades possuirá leis e normas próprias para ordenar a convivência intramuros. Os muros separam física e simbolicamente sujeitos livres de sujeitos rejeitados. O fato de uma pessoa estar destituída de sua liberdade, impedida da convivência familiar e obrigada a dividir um outro espaço do qual está contra a sua vontade faz com que o sujeito procure se incluir, se igualar. Mesmo que não perceba, passa a se vestir como os membros desses grupo, passa a ter um apelido em vez de um nome, a introjetar costumes e a aprender a linguagem local, usa gírias, onde as palavras adquirem outras significações. São termos e expressões que nomeiam objetos, coisas, ações, atitudes, lugares, drogas, violência e expressões gerais que reproduzem a realidade de um grupo de homens oprimidos que criam e usam esse vocabulário para falar sobre a vida na prisão. Contrariando alguns autores, bem como alguns profissionais (delegados, agentes penitenciários etc.), que vêem a gíria como uma linguagem de reação, agressão e revolta marcada pela diferença da exclusão social, vemos as gírias criadas no sistema prisional como uma demonstração de maneira de viver, pensar e sentir própria de um determinado grupo de pessoas, num determinado tempo e espaço. Não parece tanto servir para marcar uma diferença por si só, mas marcar uma identidade entre os diferentes.

Palavras-chave: Gíria; linguagem; apenados; prisão; identidade; diferença; exclusão social; sistema prisional.

v.6, n.22, p.183-195